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"É bom que você entenda que arte - e aqui me refiro especificamente à música - não é uma questão de gosto. Temos de exercitar nossa compreensão, ou seja, é preciso que nosso entendimento emocional seja bem desenvolvido, através da nossa sensibilidade"

Olmir Stocker "Alemão"

Tempestade elétrica no Central Park

Dreams é umas das faixas mais intensas, monumentais e impactantes da história do Fusion/JazzRock

A primeira formação da Mahavishnu Orchestra parecia uma reunião da ONU. Jonh Mclaughlin da Inglaterra, Billy Cobhan do Panamá, Rick Laird da Irlanda, Jam Hammer da Checoslováquia e Jerry Goodman dos EUA. Todos com diferentes tipos de formações musicais. O curioso é que com exceção de Billy Cobhan, esses nomes não foram a primeira escolha de John M. Jean Luc Ponty era a primeira opção para o violino, Tony Levin (Gary Burton) era a opção para o baixo e Larry Young era a opção para as teclas.

Essa formação fez sua estreia em Nova York em 1971 e a interação foi instantânea, havia uma ligação forte entre os músicos, uma unidade, um objetivo comum e acima de tudo, eles acreditavam estar em uma missão, havia algo de sagrado na música que faziam, definitivamente não estavam lá pelo passatempo e John Mclaughlin principalmente levava isso muito a sério, era centrado e tinha um objetivo:

Fazer de sua música um Instrumento para alcançar uma força superior, para que essa mesma força fizesse dele um “instrumento”.

Depois de 2 excelentes álbuns (The Inner Mounting Flame, e Birds of Fire ) o clima entre os músicos começou a desingringolar. Isso ficou claro principalmente no Trident Studios em Londres onde se reuniram para gravar  o que seria o terceiro disco, o clima estava tenso. Em 1999 essas sessões de gravação foram lançadas no disco “The Lost Trident Sessions. Basicamente havia dois grupos dentro da banda, de um lado John Mclaughlin e Billy Cobhan, de outro Jam Hammer e Jerry Goodman e Rick Laird pendendo de um lado para outro. Ciclos se fecham e novos se abrem, assim é curso das coisas, mas a música permanecia imune dessa vibração pesada.

Em 17 e 18 de Agosto de 1973 a Mahavishnu tinha duas apresentações no Central Park – NY. As gravações realizadas no Trident Studios haviam sido postas de lado e decidiram pegar o material gravado no segundo dia do Concerto do Central Park e lançaram Between Nothingness And Eternety.

O disco começa com Trilogy e as batidas do gongo prenunciando o que estar por vir. (Imagino a cena do Billy Cobhan reverberando o gongo pelo Central Park). Após um curta introdução da guitarra, entra o tema. Um cartão de vistas da banda que em “estranhos” compassos resume bem a essência da Mahavishnu Orchestra. Teclado e guitarra se alternando como num duelo, não deu para o Jam Hammer. Uma pausa para o violino e o baixo dobrarem a melodia, novo interlúdio e uma tempestade de raios baixa no Central Park eletrizando os músicos e mandando o ponteiro do VU lá pra cima! Mahavishnu toca alto e intensamente!

Sister Andrea tem um solo de guitarra com notas dissonantes que dá arrepios. Tudo num ambiente de tensão que só alivia por alguns segundos quando entra a marcação da bateria e daí novamente com o retorno do tema principal.

Dreams é umas das faixas mais intensas, monumentais e impactantes da história do Fusion/JazzRock

e ocupa todo o lado B. Após uma longa introdução “espacial” que te arrasta para regiões remotas, a banda entra de uma maneira energizante, a guitarra faz variações sobre um mesmo riff com o teclado ao fundo fazendo a mesma onda. A banda mais uma vez entra tocando sobre uma base de “Sunshine of your love” num ritmo alucinante. Outra vez a guitarra faz variações sobre o mesmo riff só que agora acompanhado da bateria, a guitarra ataca como um fenômeno da Natureza, contagiando à todos e assim atinge o pico de intensidade na música. O som pulsa forte!  A música acaba e você se sente nocauteado.

Billy Cobhan é um colosso e segura a onda de John Mclaughlin com maestria e muita, mais muita energia. E nas palavras dele:

“No começo não entendi o que John Mclaughlin estava tentando fazer e a música estava exigindo demais de mim porque não havia encaixado meu som ainda. Então costumava gastar toda minha energia e saia bufando, ofegando e isso me assustava. Eu saia do palco e meu coração disparava por causa de toda essa força! Não achava que eu era fisicamente capaz de tocar nesse nível de intensidade e ainda me manter inteiro. Então, de repente, comecei a aprender a estabelecer meu ritmo. Era isso ou morrer !!”

“Ao ouvir nossa música, deixe sua vida mundana para trás e adentre ao mundo do som supremo”

Essa mensagem deveria vir estampada na capa do disco! Alguns concertos depois a banda acabou dando início a segunda fase da Mahavishnu Orchestra, agora com John Mclaughlin como band leader incontestável e muito assunto para uma próxima resenha.

Uma observação pertinente. Esse disco não merece ser escutado em MP3, YouTube e outros do gênero. Procure ouvi-lo em um equipamento de áudio de qualidade para tirar o máximo que essa gravação pode proporcionar. Irá fazer uma grande diferença, um som desse não combina com compressão, precisa de espaço para se expandir.

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João Carlos Fávaro

João Carlos Fávaro

Produtor Executivo (BIM – Vinil Review – Na Agulha do Vinil) Dos meus discos de Vinil acumulados em muitos anos de garimpagem em lojas, feiras e recentemente pela internet e acreditar no poder transformador da música, é que resolvi criar esse projeto de divulgação e valorização da música e de quem faz a música. Atrás de um grande álbum tem toda uma história de dedicação de pessoas. Do músico que passou anos se dedicando ao seu instrumento, do Produtor, do Engº de som, enfim.... teve a contribuição de muita gente. Comecei com uma ideia e a disposição de tirá-la do papel, daí surgiram os projetos Vinil Review de qual sou cofundador, Na Agulhado Vinil e agora o BIM. Só consegui isso pela dedicação e amor pela música de nossos parceiros.

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