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"É bom que você entenda que arte - e aqui me refiro especificamente à música - não é uma questão de gosto. Temos de exercitar nossa compreensão, ou seja, é preciso que nosso entendimento emocional seja bem desenvolvido, através da nossa sensibilidade"

Olmir Stocker "Alemão"

Guinga! Ah, o Guinga!

Guinga traz o Brasil de volta pra canção, como diz a letra de Aldir em Esconjuro.

Já passou da hora de todo mundo se dar conta de tudo o que o Guinga é, do privilégio que é ser conterrâneo e contemporâneo do Guinga. Tenho certeza de que a ele se aplica com muita propriedade a definição do que é ser gênio. Como compositor, como violonista, como cantor, como tudo. Naquela linhagem que vem de Villa-Lobos e passa por Pixinguinha, Noel, Radamés, Caymmi e Jobim, ele – além de fazer a síntese – é ele mesmo, diferente e igualmente genial. Pra mim, não há hoje no Brasil um melodista como ele. Seja compondo sozinho ou com seus parceiros – o simples, absurdo e fora da ordem Aldir Blanc (que a pandemia nos roubou), o lírico Paulo César Pinheiro, o novo e instigante Thiago Amud – Guinga traz o Brasil de volta pra canção, como diz a letra de Aldir em Esconjuro.

Claudia Jimenez, Aldir Blanc, Leila Pinheiro e Guinga

Sou o desconhecido mais famoso do Brasil”, diz ele com muita graça, como quem ri da nossa tragédia. Azar de quem não conhece e seria muito mais feliz se conhecesse um de seus mais preciosos tesouros, digo eu.

Conheci o violão de Guinga em 1976, na faixa O Mundo É Um Moinho, que abre o segundo disco de Cartola. Na primeira passada da gravação, só a voz de Cartola, a flauta de Altamiro Carrilho e o violão dele. Só? Aquilo era simplesmente tudo.

Dois anos antes, tinha ficado apaixonada por duas canções dele, em parceria com Paulo César Pinheiro, gravadas pelo MPB-4 no disco Palhaços E Reis: Conversa Com O Coração e Maldição De Ravel.

Nesta ocasião, ele ainda era um dentista praticante e se alternava entre a música e o consultório. E eu, embora procurasse sem parar, não conseguia sequer saber como era o rosto dele. Até que, em 1979, minha pra sempre predileta cantora grava – ao lado de Cauby Peixoto – seu Bolero De Satã, no disco Elis, Essa Mulher. Num LP – sim, na época era um LP – que trazia O Bêbado E A Equilibrista, de João Bosco e Aldir Blanc, um sucesso estrondoso logo apelidado de Hino da Anistia – sim, na época vivíamos sob uma ditadura militar -, Bolero De Satã foi a outra música do disco que também se destacou, e muito.

Contudo, neste país esquisito em que vivemos, o primeiro disco de Guinga só veio a acontecer em 1991: Simples e Absurdo, com 11 composições dele e Aldir Blanc e diversos intérpretes. Entre eles, Leila Pinheiro que, cinco anos depois, gravou um disco inteiro com as parcerias dos dois: Catavento e Girassol.

Depois de 1991, têm sido muitos os discos, embora menos do que eu – sempre louca por eles e pelo Guinga – gostaria. Discos gravados aqui e no exterior. Sim, porque o “desconhecido mais famoso do Brasil” é muito respeitado lá fora.

O mais recente foi gravado no Japão, ao lado de Mônica Salmaso – que em 2014 gravou “Corpo De Baile”, um CD todo dedicado às composições de Guinga e Paulo César Pinheiro –, Nailor Proveta e Teco Cardoso.

Aliás, a última vez em que vi o Guinga foi exatamente num show com o repertório deste disco, na Casa de Francisca, no centro de São Paulo.

Naquela noite, ele, Mônica Salmaso, Nailor Proveta e Teco Cardoso fizeram mais do que um show. Fizeram um sarau. O silêncio da casa lotada, só quebrado pelos aplausos ao fim de cada canção, era a mais pura reverência de quem sabia que estava participando de um momento único e especial diante de uma obra – a dele, Guinga – e de quatro músicos raros, merecedores daquela plateia e de qualquer outra em qualquer grande palco do mundo.

E ele ali, com seu violão, sua melancolia, sua graça, sua aura de gênio e, ao mesmo tempo, ao alcance da nossa mão, do nosso abraço. Totalmente rendido ao nosso carinho e admiração.

A impressão que eu tinha ouvindo toda aquela beleza é que além daquelas lindas janelas do palacete Teresa onde hoje é a Casa de Francisca não poderiam caber moradores de rua nem uma cidade desumana, desigual e maltratada. E muito menos o país infeliz que o Brasil é de uns anos pra cá.

Guinga e sua música são com certeza uma cura, uma salvação. Foi uma noite em que eu consegui passar duas horas de encantamento, sem prestar atenção em outra coisa que não fosse aquela música. A música de Guinga.

Em 2020, Guinga chegou aos 70. Nasceu 19 anos depois, mas no mesmo dia de outro gênio de nossa música, João Gilberto. O 10 de Junho deveria ser proclamado como o Dia da Música Brasileira.

Mais do que os muitos parabéns que Guinga merece por tudo o que ele é como músico e figura humana, quero mesmo é agradecer o tanto que ele embeleza a minha vida.

Maria Luiza Kfouri

www.discosdobrasil.com.br

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Maria Luiza Kfouri

Maria Luiza Kfouri

Nascida em São Paulo, quatro anos antes da Bossa Nova, Maria Luiza Kfouri é jornalista e musicóloga. Foi coordenadora musical da Rádio Gazeta FM (SP) em 1988, ano em que a emissora recebeu – da Associação Paulista dos Críticos de Artes (APCA) – o prêmio de melhor programação musical. Entre 1989 e 1995, foi diretora da Rádio Cultura AM de São Paulo, onde co-dirigiu e co-produziu as séries “Noel Rosa, as Histórias e os Sons de uma Época” (1991); “Elis. Instrumento: Voz. Uma Travessia em 6 Tempos” (1992) – prêmio APCA; “Vinícius. Poesia, Música e Paixão” (1993) – prêmio APCA; “Caymmi por Ele Mesmo” (1994) – prêmio APCA. Maria Luiza é autora da “Cronologia” e “Discografia” que estão na segunda parte do livro “Furacão Elis”, lançado originalmente em 1985. Em 2004 escreveu os capítulos “Breve Histórico do Violão” e “Grandes Mestres” do livro “Violões do Brasil”, projeto organizado por Myriam Taubkin que envolve, ainda, um CD duplo e um DVD. Em 2005 escreveu o capítulo “História”, do livro “Um Sopro de Brasil”, projeto também organizado por Myriam Taubkin. Em 2020, continua a atualizar constantemente o site, escreve sobre música brasileira e, devido à quarentena imposta pela pandemia do coronavírus, participa de inúmeras “lives”.

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