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"É bom que você entenda que arte - e aqui me refiro especificamente à música - não é uma questão de gosto. Temos de exercitar nossa compreensão, ou seja, é preciso que nosso entendimento emocional seja bem desenvolvido, através da nossa sensibilidade"

Olmir Stocker "Alemão"

Egberto Gismonti. Por André Mehmari

...algo que me encantava nisso tudo era sua capacidade de transportar aquele coreto do interior, com sua metafísica, inefável poesia, para todos os maiores palcos do mundo.

Foi assistindo ao clássico programa Ensaio, onde Fernando Faro – que deixava Egberto Gismonti totalmente à vontade pra tocar e falar sobre música – que eu tive aquele “momento decisivo”, aquele “click”: vou seguir e trilhar o caminho da Música! Eu devia ter por volta dos 13 anos de idade quando isso aconteceu e fiquei profundamente marcado com aquilo que ouvi e percebi da relação do músico com sua arte e seus instrumentos. Naquele momento eu SOUBE que só a música me faria um ser humano completo. 

Egberto pra mim sintetiza uma brasilidade profunda e complexa, como aquela professada por Villa-Lobos. Seu domínio instrumental absoluto (e personalíssimo) do piano e do violão é tão impressionante quanto a originalidade de suas composições. 

Sua vasta produção discográfica é testemunha inconteste desta fertilidade imaginativa: sejam os discos gravados pela Odeon no Brasil ou pelo selo alemão ECM, os registros são retratos fiéis dos varios “momentos” criativos do mestre do Carmo, do solo ao sinfônico, passando pelas canções, pelo duo clássico com Nana Vasconcelos e o quarteto fantástico com Nenê, Zeca e Mauro. 

Complementam ainda a discografia, extensa produção de trilhas para filmes, balés e teatro. Um parênteses interessante é o flerte de Egberto com os sintetizadores analógicos nos anos 1980, com sonoridade orgânica e viva, completamente pioneira no Brasil da época. Eu até “herdei” um Oberheim desta época, pertencente ao Eduardo Souza, parceiro de Egberto neste projeto.

Contei com a participação especial de Egberto em meu disco em parceria com Hamilton de Holanda, Gismontipascoal. 

Não tivemos ainda a chance de um contato musical mais íntimo nos palcos mas eu me sinto tão próximo de sua obra que é como se isso já tivesse acontecido repetidas vezes! Carrego essa musica comigo para meus shows em toda parte, como um manifesto do Brasil que eu amo: mestiço, rico, inteligente, inclusivo, divertido, reflexivo, profundo e inspirador!

E o que mais dizer? Egberto que por sua vez é oriundo de uma família de músicos gerou dois belos continuadores da tradição: seus filhos Alexandre (ao violão) e Bianca (ao piano, voz e composição). Vale lembrar que Gismonti teve no seu caro tio Edgar, maestro da banda do Carmo, uma clara e genuína referência humana e musical. 

Aliás, em descontraída conversa com Egberto eu comentei que algo que me encantava nisso tudo era sua capacidade de transportar aquele coreto do interior, com sua metafísica, inefável poesia, para todos os maiores palcos do mundo. 

Ele sorriu, acenou que eu havia (num golpe de sorte) acertado na mosca.

Há de ô! Sim, reside ali uma das riquezas do Grande Artista, que não se vende e não se corrompe – não se dilui no ruído digital circundante mas se mantém fiel ao impulso inicial que originou toda esse forrobodó criativo: aquela energia mágica da qual não se sabe o nome nem endereço. 

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André Mehmari

André Mehmari

Pianista, arranjador e compositor, nasceu na cidade de Niterói-RJ em 22 de abril de 1977. Considerado pela crítica “um artista singular de imaginação vibrante e generosa”, Mehmari teve seus primeiros contatos com a música através de sua mãe já em Ribeirão Preto-SP. Mudou-se para São Paulo em 1995, com seu ingresso no curso de piano da ECA-USP. Compositor prolífico e requisitado, apontado como um dos mais originais e completos músicos brasileiros de sua geração e premiado tanto na área erudita quanto popular, teve suas composições e arranjos tocados por muitos grupos orquestrais e de câmara, entre eles OSESP, OSB, Filarmonica de Minas Gerais, Miami Symphony, Orchestre de Normandie, Quarteto da Cidade de São Paulo e Quinteto Villa-Lobos. Recentes trabalhos incluem obras para o violoncelista Antônio Meneses e a trilha sonora da primeira série brasileira produzida para a plataforma Netflix. Além de uma vasta e premiada discografia, Mehmari possui uma ativa carreira internacional como solista.

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