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"É bom que você entenda que arte - e aqui me refiro especificamente à música - não é uma questão de gosto. Temos de exercitar nossa compreensão, ou seja, é preciso que nosso entendimento emocional seja bem desenvolvido, através da nossa sensibilidade"

Olmir Stocker "Alemão"

Pescando pérolas no Rio das Ostras – Chico Chagas Trio

Mas foi um trio brasileiro, até então desconhecido para mim, quem roubou a cena. Chico Chagas, sanfoneiro do Acre, sereníssimo mas nunca seríssimo...

O Festival de Rio das Ostras, já em sua 16ª edição, é, de fato, uma pérola em meio à saturação de nulidades no meio musical. Não é à toa que tem prestígio internacional. Esse prestígio, porém, não impediu que o amadorismo da produção do evento nos desse um espetáculo (negativo) à parte. Anunciaram a volta do palco da Tartaruga, montado sobre as pedras da praia, mas na hora H interditaram o acesso ao público. Assim, tive que assistir Serginho Trombone e a lenda viva Jamil Joanes a 200 metros de distância. Pessoas despreparadas e sem a mínima noção do que se tratava o festival, incluindo iluminação ofuscante nos shows noturnos, completaram o quadro.

Já as atrações, ao contrário, deram um exemplo de profissionalismo. Mesmo a banda holandesa Jig, de fake-jazz ( e não funk-jazz, como anunciado) conseguiu dar seu recado. Bem melhor se saiu a surpreendente Mozar Jazz Band, das longínquas Ilhas Maurício. Formada quase só por adolescentes, com um espantoso baixista mirim, deu um banho de suingue e improvisação em muito marmanjo por aí. As acrobacias de Roy Rogers na guitarra slide, Lucky Peterson no órgão Hammond, e Rodney Holmes na bateria, foram outros destaques estrangeiros.

Mas foi um trio brasileiro, até então desconhecido para mim, quem roubou a cena. Chico Chagas, sanfoneiro do Acre, sereníssimo mas nunca seríssimo; Alexandre Cavallo, um baixo de sutil suingue que reflete o espírito zen da cidade (a empresa de ônibus local se chama Zen); e Cristiano Galvão, batera que em sua extrema concentração prepara os botes de sua ferocidade. Um genuíno powertrio, uma usina doida de sons. Integração e explosão: confesso que não via algo assim desde Sonny Rollins no Parque da Catacumba, Rio de Janeiro, há 30 anos.

Chico inicia em solo, chama melodias do além, do aquém e do aqui e agora, insinua um maxixe-carimbó, e quando entram Alexandre e Cristiano, qualquer eventual nervosismo é dissipado. A lua cheia em frente ao palco traz o aval celeste, e uma atmosfera de encantamento, e não são precisos, realmente, esses holofotes ofuscantes. O trio, porém, sacode a poeira e não deixa nota sobre nota. A plateia aceita o feitiço, chora, baila, urra de assombro e prazer. Ouço alguém dizer: parece uma igreja. Não, minha senhora, é um culto à lua. E ao Lua. Lembro-me dos shows da Cor do Som, na década de 80, que assistia de graça no Parque Ibirapuera: ritmos brasileiros e latinos em abordagem jazzística, com pegada de rock. E o cabra do Acre é esperto: entremeia seu repertório pega-pra-capar com canções bem conhecidas do público (Caçador de mim, Só quero um xodó, Trenzinho do caipira). Nessas ele tem o auxílio luxuoso de um coral encantado de mais de mil pessoas, e o trio continua improvisando em cima das vozes, até partir novamente para a estratosfera jazzística. O Oceano, de Djavan, inunda a noite, com direito a um terno solo de Alexandre, e se torna o momento mais tocante (literal e figurativo) do festival, rivalizando com a interpretação de Diane Reeves (e Romero Lubambo), em perfeito português, para a Tarde de Milton Nascimento.

A sanfona, em suas diferentes denominações e formatos (acordeon, harmonica, gaita, etc..), exige habilidade e força física do executor, por isso são raros os que enveredam pelo jazz, como Art van Damme. Graças a Luiz Gonzaga, no norte, nordeste e Guanabara, e depois Mario Zan no sul e sudeste, o instrumento foi uma coqueluche por aqui nos anos 50, sendo só destronada mais tarde pelo violão de João Gilberto. Aliás, o 1º instrumento de outro João, o Donato, foi o acordeon. Com suas possibilidades harmônicas e sua gama de timbres, pode-se dizer que foi uma precursora do sintetizador. Quem é “ás”, como o Chico, sabe que tem uma orquestra nas mãos. E talvez seja o único instrumento que coreografa a música que produz: o resfôlego da sanfona, o vai e vem serpenteante do fole tem um efeito plástico sem igual.

Voltemos ao culto, digo, ao show: não faltam homenagens a Piazzolla, num tango torto composto pelo próprio Chico, e ao “maior sanfoneiro do mundo”, em Só quero um xodó (não preciso dizer quem é, certo?), num final apoteótico em que o sereno Chico se permite a alguns passos de forró e poses de roqueiro que, claro,  fazem subir mais um grau em nosso delírio. Saudação, talvez, a outro grande mestre da sanfona com suingue: Oswaldinho do Acordeon.

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Ed Calahani

Ed Calahani

Formado em Psicologia e escritor de poesias e crônicas ligeiras (parece redundância mas não é). Dedica boa parte de seu tempo em estudos e experimentos com musicoterapia. Começou ouvindo orquestras na década de 60, músicas de novela, depois rock e MPB quando entrou na USP, até descobrir o jazz no festival de São Paulo em 1978. Se você captura o jazz, todas as outras músicas lhe soarão melhor.

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