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"É bom que você entenda que arte - e aqui me refiro especificamente à música - não é uma questão de gosto. Temos de exercitar nossa compreensão, ou seja, é preciso que nosso entendimento emocional seja bem desenvolvido, através da nossa sensibilidade"

Olmir Stocker "Alemão"

Moacir Santos. Por Andrea Ernest Dias

Buscava a simplicidade e o equilíbrio de suas melodias, harmonias e ritmos, provocando contrastes e surpresas por meio de detalhes aparentemente triviais, mas de comprovada eficácia, que nos encantam até hoje

Minha história com o maestro Moacir Santos começou com um telefonema do saxofonista Zé Nogueira, quando eu estava em Ibitipoca, Minas Gerais, para as festas de fim de ano em família, de 2000 para 2001.

– Deda, vamos gravar o Moacir! Vou te mandar o solo de Nanã, por fax!

– Beleza, Zé, vou adorar, obrigada!

Assim, ainda sem ter a dimensão do que me aguardava ao voltar para o Rio, comecei o ano no Estúdio AR, na Barra, com minhas flautas debaixo do braço, para gravar no Ouro Negro. Mal sabia que o telefonema de Zé determinaria tantos novos caminhos em minha vida. Moacir Santos foi o farol que clareou várias de minhas inquietações musicais e certamente gerou outras tantas. Moacir diria: “Isso foi coisa dos anjos!”. Não tenho muito como contestar, acho melhor aceitar os desígnios do destino e contar um pouco sobre o que sucedeu.

Desde o seu lançamento em 2001, o CD Ouro Negro foi considerado um marco na discografia brasileira. A compilação feita por Zé Nogueira e Mario Adnet descortinou a música maravilhosa de Moacir para as novas gerações (eu incluída, então) e instigou uma sequência de ações em torno da criação do maestro. Seguiram-se o CD Choros & Alegria e o DVD Ouro Negro, de que também fiz parte. Moacir tornou-se, então, novamente o herói que havia sido no Brasil quando lançou Coisas, nutrindo as cabeças musicais pelo país afora com suas polirritmias, melodias, harmonias e contrapontos provocantes.

Os temas ganharam corpo com o lançamento de suas partituras nos Cancioneiros Moacir Santos, o que permitiu o início de análises mais aprofundadas sobre a obra do maestro. Esse foi, então, o caminho que optei por percorrer, ao ingressar no doutorado em música da Universidade Federal da Bahia, em 2006, ano em que Moacir faleceu.  Enxerguei ali um material que atiçaria a reflexão sobre a criação musical, algo que estava pulsando em mim desde as gravações no AR.

Na pesquisa de campo pude rastrear seus prodigiosos passos de menino-músico nas bandas do sertão de Pernambuco nos anos 1930 e 1940, de jovem maestro da Rádio Nacional e professor nos anos 1950 e 1960 no Rio de Janeiro, e os de compositor consagrado pelo jazz a partir do lançamento do LP Maestro, na Califórnia, nos anos 1970. Em Pasadena, onde optou por viver, seu acervo de livros e partituras – obrigada, Cleonice Santos e Moacir Santos Jr., por terem me dado esse acesso privilegiado – me permitiu esclarecer um pouco mais sobre a sua maneira de compor e desvendar (ou tentar desvendar) suas preciosas singularidades musicais.

Desde que, nos primórdios de seu tempo na Rádio Nacional, disse a si mesmo que seria o músico mais completo que pudesse ser, Moacir foi um estudioso contumaz de matérias musicais. Buscou a orientação de, entre outros, Guerra-Peixe, Radamés Gnattali e H.J.Koellreuter, de quem foi assistente em suas aulas. Sua farta biblioteca é prova e testemunha da vastidão de seus conhecimentos. Extremamente metódico, baseou suas escolhas sonoras em teorias musicais de todas as épocas, do contraponto estrito da Renascença à música atonal, passando por tratados de harmonia e orquestração dos mais importantes autores. Procurava inspiração nos clássicos, examinando em detalhes a obra de Bach, Brahms, Mozart, Schubert, Chopin, Ravel, Scriabin, Sibelius e tantos outros. Buscava a simplicidade e o equilíbrio de suas melodias, harmonias e ritmos, provocando contrastes e surpresas por meio de detalhes aparentemente triviais, mas de comprovada eficácia, que nos encantam até hoje. O mojo, ritmo que se tornou uma de suas principais marcas de compositor, é um exemplo dessas inovações. 

Resumidamente, a vida e obra de Moacir Santos foram o escopo de minha tese, que depois publiquei em livro. Moacir Santos, ou os caminhos de um músico brasileiro teve grande aceitação no meio musical e acadêmico, servindo de referência para estudos posteriores. Ademais, outras ações surgiram a partir de meu envolvimento com a obra de Moacir, como as duas edições do Festival Moacir Santos (2013 e 2014) e a série comemorativa dos 90 anos de Moacir, em 2016, com cinco programas especiais para a Rádio MEC FM (também transmitidos pela Rádio Batuta/IMS), ilustrando musicalmente os capítulos de meu livro. Ainda em 2014, com meus parceiros do Trio 3-63, Marcos Suzano e Paulo Braga, lançamos o CD Muacy, com algumas músicas inéditas que recolhi no acervo de Pasadena. No fim de 2018, também promovi o concerto Moacir Santos Sinfônico, no Rio de Janeiro, com arranjos e originais de Moacir recolhidos no acervo da Rádio Nacional. À Orquestra Sinfônica Nacional UFF, regida por Tobias Volkmann, juntaram-se as vozes de Áurea Martins e Marcos Sacramento, num repertório de foxes, beguines, sambas-canção, afro-sambas e temas de filmes hollywoodianos. Pela primeira vez em mais de cinquenta anos, a produção de Moacir nesse período foi ouvida fora dos estúdios do rádio. Foi uma noite emocionada e emocionante, que espero conseguir registrar em CD, em breve. Na plateia cheia, jovens, adultos e idosos puderam se transportar para aquele ambiente pleno de sons e criatividade, resgatando ou aprendendo um pouco mais sobre o sentido do privilégio de termos tido, na humanidade, uma figura como Moacir Santos.

Obrigada, querido maestro. Vamos em frente, que o país está precisando de muitas coisas positivas. Tua música continua nos dando força.

Referências

DIAS, A. E. Moacir Santos, ou os caminhos de um músico brasileiro. 1. ed. Rio de Janeiro: Folha Seca, 2014. 2. ed. Rio de Janeiro; Recife: Folha Seca; Cia Editora de Pernambuco, 2016.

MOACIR SANTOS. Coisas. LP. Rio de Janeiro: Forma, 1965.

______. Cancioneiros Moacir Santos. Rio de Janeiro: Jobim Music, 2005.

______. Choros& Alegria. CD. Rio de Janeiro: Adnet Música; Zenog; Biscoito Fino, 2005.

______. Ouro Negro. CD. Rio de Janeiro: MP,B; Universal, 2001.

______. Ouro Negro. DVD. Rio de Janeiro: MP,B; Universal, 2006.

______. Maestro. LP. Los Angeles: Blue Note, 1972.

———-. Saudade. LP. Los Angeles: Blue Note, 1974.

———-. Carnival of the spirits. Los Angeles: Blue Note, 1975.

———-. Opus 3 n.1. LP. Los Angeles: Discovery Records, 1979.

Links para os programas especiais para a Rádio MEC FM (retransmitidos pela Rádio Nacional AM e pela Rádio Batuta / Instituto Moreira Salles). Rio de Janeiro: 2016.

http://radios.ebc.com.br/moacir-santos-os-caminhos-de-um-musico-brasileiro/edicao/2016-11/mec-fm-estreia-serie-especial-em

http://radios.ebc.com.br/moacir-santos-os-caminhos-de-um-musico-brasileiro/edicao/2016-11/0611-moacir-ave-de-arribacao

http://radios.ebc.com.br/especiais-mec-fm/edicao/2016-11/disco-coisas-revela-multiplicidade-da-obra-de-moacir-santos

http://radios.ebc.com.br/especiais-mec-fm/edicao/2016-11/2011-menino-eu-vou-pra-california

http://radios.ebc.com.br/especiais-mec-fm/edicao/2016-11/moacir-santos-ouro-negro-do-brasil

http://radios.ebc.com.br/especiais-mec-fm/edicao/2016-12/0412-ecos-de-moacir

Outros:

Trio 3-63. Muacy. CD. Rio de Janeiro: Sambatown, 2014.

Quartabê. Lição #1- Moacir. CD. São Paulo: independente, 2015.

Orquestra Jovem Tom Jobim visita Moacir Santos. CD. Regência de Nelson Ayres e Tiago Costa. CD. São Paulo: Santa Marcelina Cultura, 2017.

Anat Cohen & Marcello Gonçalves. Outra Coisa: the music of Moacir Santos. CD. New York: Anzic Records, 2017.

Lucas Bonetti. Site. Trilhas musicais de Moacir Santos (sobre a produção de trilhas sonoras para o cinema). São Paulo: Rumos Itaú Cultural/Fapesp, 2015 www.trilhasmoacirsantos.com.br

Revista Continente #188 – Moacir Santos (matéria de capa comemorativa dos 90 anos do compositor). Recife: CEPE, 2016

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Andrea Ernest Dias

Andrea Ernest Dias

Durante 28 anos foi flautista solista da Orquestra Sinfônica Nacional–UFF (1991 a 2019). Atualmente integra os grupos Trio 3-63, Abstrai Ensemble, Orquestra Ouro Negro, Carlos Malta & Pife Muderno e o Duo Andrea Ernest Dias & Elodie Bouny. Doutora em Música pela Universidade Federal da Bahia e autora do livro Moacir Santos, ou os caminhos de um músico brasileiro (Edições Folha Seca/CEPE, 2014/2016). Idealizadora e diretora artística do Festival Moacir Santos. Apresentou-se em importantes salas de concerto como Carnegie Hall, Lincoln Center e auditório da ONU em Nova York; Forbidden Hall, em Pequim; Cité de la Musique, em Paris; Theatro Municipal e Sala Cecília Meirelles, no Rio de Janeiro; Sala São Paulo; Palácio das Artes, em Belo Horizonte; Theatro da Paz em Belém e Teatro Amazonas, em Manaus, entre outras. Participa regularmente das Bienais de Música Brasileira Contemporânea como solista e camerista convidada. Participou de importantes títulos da discografia brasileira e sua flauta é ouvida em gravações para Baden Powell, Caetano Veloso, Chico Buarque, Edu Lobo, Guinga, Moacir Santos, Rosa Passos, Cássia Eller, Milton Nascimento e Zé Kéti, entre outros artistas da MPB. Como solista, produziu e lançou os CDs Muacy (Sambatown, 2014), Choros Amorosos (Fina Flor, 2010), Em torno de Villa-Lobos (Fina Flor, 2010), Trio 3-63 (Sambatown, 2009) e Andrea Ernest Dias - flauta e Tomás Improta – piano (Biscoito Fino, 2005).

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