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"É bom que você entenda que arte - e aqui me refiro especificamente à música - não é uma questão de gosto. Temos de exercitar nossa compreensão, ou seja, é preciso que nosso entendimento emocional seja bem desenvolvido, através da nossa sensibilidade"

Olmir Stocker "Alemão"

Sizão Machado – Quinto Elemento

Eu vibrava antevendo, ou melhor, anteouvindo aquilo já gravado e soando maravilhosamente como tudo que ele havia escrito até então! De repente ele interrompeu a execução e disse: “Pois é, mas falta o bridge, ainda não terminei essa parte...

Salve! 

Na resenha anterior, estava contando sobre minha primeira aula com o nosso mestre Moacir Santos.

Bem, passamos o dia todo juntos, falamos sobre música, vida, relações humanas, de tudo! Cozinhei pra ele, arroz, feijão, couve, rango trivial brasuca, que ele comeu com parcimônia porque estava de dieta.

Fomos até onde estava o piano e pedi ao Maestro que corrigisse algumas coisas na minha maneira de tocar certas músicas suas. Ia começar a gravar meu primeiro disco e, sem dúvida, iria incluir uma delas.

Naquela época não havia disponível nenhum tipo de material escrito, como song books ou partituras oficiais, publicado no Brasil que, como sempre, estava atrasado nesse e em muitos outros aspectos culturais e artísticos. Paciência…

Toquei uma, depois outra, ele me orientou a tocar direito. Nesse instante arrisquei uma cartada: “Maestro”, será que não teria nenhuma inédita, desconhecida, composta mais recentemente?”. Quem não chora não mama, pensei.

O sax barítono respondeu: “Olhe, inédita tenho não… ontem estava me lembrando de Stan Getz ao piano e me ocorreu um motivo melódico curioso, que tinha a forma de um palíndromo. Ficou assim”. E tocou a melodia, já com harmonia, mas os acordes só vinham lá pelo sétimo ou oitavo compasso. Antes disso era contraponteada exclusivamente por uma linha de baixo que remetia a Bach pela sua perfeição!

Eu vibrava antevendo, ou melhor, anteouvindo aquilo já gravado e soando maravilhosamente como tudo que ele havia escrito até então! De repente ele interrompeu a execução e disse: “Pois é, mas falta o bridge, ainda não terminei essa parte… tinha alguma coisa parecida com isto aqui, deixe ver…”.

Começou a lembrar-se do que tinha imaginado e terminou ali mesmo um tema que ele chamou de “Stanats”, fazendo um trocadilho sobre Stan Getz (Stan is nuts – Stanuts  – Stanats), palavra que representava o tal palíndromo, uma coisa que se lê em ambos os sentidos e tem o mesmo som.

Então, se analisarmos a melodia, veremos que acontece exatamente isso, sua construção é palindrômica! O Frank sugeriu: “Por que não gravamos isso já?”. Ele tinha um daqueles gravadores cassete de quatro canais e assim foi! Gravamos pela primeira vez “Stanats”! Moacir ao piano e eu ao contrabaixo, em uma saudosa fita cassete que depois, infelizmente, se perdeu no tempo e no espaço.

Nossa aula prosseguiu até a noite. Falamos de música, é claro, e de assuntos mais complexos pro meu entendimento e muito pouco aprofundados por mim até então, como teosofia, filosofia, física quântica – não era fácil manter uma prosa com ele! – quando nos despedimos à porta da casa, prometendo nos rever em breve. “Se Deus quiser!”, disse o Maestro.

A partir daí, nos tornamos, não só mestre e discípulo, mas bons amigos. Uma amizade semelhante a que se sente pelo pai ou avô, repleta de admiração e respeito principalmente de minha parte.

De volta ao Brasil, mostrei o tema ao meu brodinho Naylor Azevedo, o nosso Proveta, e sugeri que fizesse um arranjo do tema que foi apresentado ao Maestro no Festival de Inverno de Campos do Jordão, em 1994, onde estávamos todos juntos dando aulas durante o mês de julho.

O curioso é que ele já nem se lembrava mais da composição e tive que ensiná-lo a tocá-la novamente…

Pois é, meus caros! Parafraseando Guimarães Rosa, que está para a literatura brasileira assim como Moacir Santos para nossa música: “O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim, esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta, sendo que é formosa. O que ela quer da gente é coragem”.

Abraços

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Sizão Machado

Sizão Machado

Criador de uma linguagem musical única, que vai muito além do universo de seu instrumento, o contrabaixista Sizão Machado é reconhecido nacional e internacionalmente, por suas atuações ao lado de Chet Baker, Herbie Mann, Elis Regina, Cesar Camargo Mariano, Jim Hall, Chico Buarque, Dori Caymmi, Djavan, Milton Nascimento, Dionne Warwick, Ivan Lins, Joyce, Guilherme Vergueiro, Flora Purim & Airto Moreira, Roberto Menescal, Noite Ilustrada, Jean & Paulo Garfunkel, Família Jobim, Paulo César Pinheiro, Heraldo do Monte, Paul Winter, Hendrick Merkins e muitos outros, imprimindo sempre sua marca por onde toca.

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