img_Header_logo

"É bom que você entenda que arte - e aqui me refiro especificamente à música - não é uma questão de gosto. Temos de exercitar nossa compreensão, ou seja, é preciso que nosso entendimento emocional seja bem desenvolvido, através da nossa sensibilidade"

Olmir Stocker "Alemão"

Minha História com Hermeto Pascoal

Minha História com Hermeto Pascoal e o lançamento do disco “Hermeto Pascoal e Grupo Vice Versa – Viajando Com o Som” The Lost 1976 Tapes. (Far Out Recordings – London 2017)

Havia em São Paulo, por volta de 1969, 1970, na esquina da rua Estados Unidos com Antilhas, um lugar chamado CAMJA (Clube dos Amigos do Jazz), uma bela casa que o vibrafonista Alvaro Brito de alguma forma cedia ou alugava, não sei ao certo, para que funcionasse o clube, que tinha carteirinha e tudo mais, e que era frequentado por críticos de música, como o Fausto Canova, Armando Aflalo, os músicos do Zimbo Trio (Hamilton, Luiz Chaves e Rubinho), e muitos outros jazzistas da época. Havia uma sala onde se podia tocar ou estudar, acusticamente preparada, com todos os instrumentos, e os sócios faziam “Jam Sessions”, uma alternativa para poder reunir os músicos naqueles dias de noites escuras. Comecei a frequentar e me associei ao clube. Numa dessas tardes, mais uma vez junto com o Itiberê Zwarg, ao entrarmos no clube, ouvimos o som de um piano, incrível, vindo do pequeno auditório. Ao abrir a porta, a luz estava apagada! Acendemos a luz, e nos deparamos com a figura do Hermeto (da época do Quarteto Novo, cabelo curtinho), que estava estudando. Ele nos cumprimentou e foi logo nos convidando para tocar:

“Ô meu fio, chega aí, vamos fazer um som!”

Confesso que a princípio fiquei meio assustado, pois nunca vira ele de perto, aqueles olhinhos virando, mas fomos lá e tocamos por cerca de uma hora. Depois desse dia, só vi o Hermeto de novo em 1972, quando ele voltou dos Estados Unidos, tinha gravado com o Miles e também os primeiros discos do Airto e o dele próprio, com orquestra, que é um dos meus favoritos. Foi num show do “Mandala”, que um amigo nosso, o arquiteto Zico Priester organizou, e levaram o Hermeto para assistir. Depois fui tocar com a orquestra do Baurú (sax-barítono), num lugar chamado “Garitão”, era um salão de baile enorme que tinha na Barra Funda, ele montou essa orquestra da qual participei, e o Hermeto estava assistindo nesse dia também.

Depois eu soube que o Hermeto estava montando um grupo, gravando um disco no Brasil, mas eu havia sido convidado para ir trabalhar nos Estados Unidos, em Minneapolis, e estava arrumando meus papéis. Foi quando o Nenê, com quem eu já tinha amizade, me ligou dizendo que o Hermeto precisava de um baterista/percussionista para um show em Londrina, no Paraná, substituindo ao Anunciação, que por problemas de saúde havia deixado o grupo. Hermeto tinha acabado de gravar o LP “A Música Livre de Hermeto Pascoal”, com o grupo original que aparece na ficha técnica. Tive que aprender o repertório em alguns dias, e fiz o show. Ao ir à casa do Hermeto, no bairro da Aclimação, em São Paulo, na semana seguinte, para receber o cachê, ele me fez o convite para permanecer no grupo.

Aceitei prontamente e desisti da viagem, pois trabalhar com o Hermeto era tudo o que eu queria naquele momento.

Nessa época, o Nenê tocava piano em algumas músicas e eu bateria, e quando o Nenê tocava bateria, eu ia para a percussão. A Aleuda, que era casada com o Nenê, fazia vocal. Gravamos um especial para a Tv Cultura em 74, e um para a TV de Baden Baden (Alemanha). Heraldo do Monte (guitarra) participava também às vezes. O contrabaixista era o Mathias Matos. Hermeto chamava o grupo de sopros a cada show, pois estava numa época de transição e os músicos nem sempre estavam disponíveis, então a cada show vinham diferentes músicos, como o Roberto Sion, Nivaldo Ornelas, Bolão, Carlos Alberto, Costita, Demétrio, Hamleto, Bola, Mazinho. Logo depois vieram o Mauro Senise, Raul Mascarenhas, Zé Carlos, Márcio Montarroyos, Toninho Horta, Oberdan, cujo contato nasceu de uma aspiração do Hermeto e nossa também, de ter um time de músicos mais fixo e com um som mais contemporâneo, a fim de ensaiar, pois com exceção do Nivaldo, os outros eram mais comedidos nos improvisos, e basicamente eram os músicos que gravavam muito em Sampa, então não podíamos contar com um mesmo time.

Isso em 75, já no fim do ano, quando fomos fazer o disco do Taiguara, e o Hermeto já estava pensando em se mudar para o Rio, pois conhecemos o pessoal durante a gravação e achamos que estavam realmente dispostos a criar um lance e tinham tempo para se dedicar aos ensaios, aparentemente. O Festival Abertura da Rede Globo foi em 75, no começo do ano, tinha uma introdução que o Hermeto escreveu para minha “performance” na “Barraca de Percussão” e Orquestra, depois entrava o tema, um baião/xaxado com ritmo e letra, mas pediram para tirar na gravação essa introdução, nesse compacto eu fiz a percussão das duas faixas, “O Porco na Festa” e “Rainha do Mar”, o Lelo ainda não tinha entrado no grupo, e foi o último trabalho do Nenê antes de ir trabalhar com a Elis Regina. Na apresentação do Festival não foi o grupo todo com os sopros, só a “cozinha”, Aleuda (vocal), Nenê (percussão), Mathias Mattos (contrabaixo), Hermeto (pífano) e eu (percussão). Hermeto ganhou o prêmio de melhor arranjo, a gravação foi nos estúdios da RCA em Sampa e foram arregimentados os músicos pela gravadora para compor a orquestra.

Depois do “Abertura” o Zeca Assumpção substituiu o Mathias Mattos e logo depois decidimos, eu e o Hermeto, numa conversa durante uma viagem de trem para o Rio naquelas cabines com beliche, convidar o Lelo para integrar o grupo, isso já no final de 75. O Lelo frequentava os ensaios do Hermeto antes de ser efetivado no grupo, e costumávamos tocar nos intervalos dos ensaios, ou na parte da manhã, pois eu ia cedo para lá e ficava estudando, às vezes o Lelo ia comigo e ficávamos tocando nossas coisas,

e foi daí que o Hermeto optou por convidar o Lelo, pois estava observando o que estávamos fazendo, de vez em quando ele se juntava a nós e ficávamos tocando “free” durante um tempão!

Com a saída do Nenê, a formação ficou com: Lelo, Zeca e eu (a “cozinha paulista” citada em artigos da época), Aleuda (vocal), Mauro Senise, Nivaldo Ornelas, Raul Mascarenhas, Toninho Horta. Participaram também de alguns shows o Márcio Montarroyos, Oberdan, Zé Carlos, e alguns outros que davam canja nos shows.

Hermeto sempre tratou os músicos do grupo como parte da própria família. Ele vivia próximo à casa de meus pais em São Paulo. Minha rotina diária era caminhar até a casa dele depois de fazer meus exercícios físicos. Em 1973 eu troquei meu estilo de vida noturna por uma mais saudável, levantando bem cedo e por volta das 9 da manhã já estava batendo na porta da casa do Hermeto. A Ilza, sua esposa, me atendia e me oferecia uma xícara de café, enquanto eu aguardava o Hermeto. Ele sempre gostou de contar suas histórias e eu adorava ouvi-las, Depois eu subia para a sala de ensaios para praticar. Depois do almoço, por volta das 14hs o pessoal chegava para o ensaio, que durava até a noite. Hermeto escrevia muitos arranjos para cantores e jingles para propaganda. Ele me chamava sempre para gravar nessas ocasiões por confiar no meu trabalho. Eu sabia o que fazer e gravava principalmente como percussionista.

Os concertos ao vivo eram um arraso. Eu me lembro de um deles no Teatro Municipal de Campinas em que o empresário não contratou ninguém para fazer a sonorização. Hermeto pensou em cancelar o evento e os instrumentos ficaram dentro das capas no palco, mas vendo o teatro lotado ele entrou, fez um solo de piano e começou a chamar os músicos. Fomos entrando e tirando os instrumentos das capas, fazendo um concerto improvisado que levantou a plateia.

Em 1976 fomos ao Estúdio Vice-Versa em São Paulo e gravamos de forma independente 46 minutos de material, que acabaram nunca sendo lançados.

Nessa mesma época houve um show do Teatro Bandeirantes, com Nivaldo, Mauro, Raul e Zé Carlos. O Hermeto acabou se mudando para perto dos pais, no bairro carioca do Jabour, e ainda continuamos por um tempo indo ao Rio para ensaiar e para shows no MAM e no Teatro Theresa Raquel, no fim de 76, permanecemos até o começo de 77. Com o trabalho do Grupo Um já em andamento…


A GRAVAÇÃO

Para a gravação em 1976 no Estúdio Vice Versa, de propriedade do Maestro Rogério Duprat tínhamos a “Cozinha Paulista” com Lelo Nazario, Zeca Assumpção e Zé Eduardo Nazario e os convidados Nivaldo Ornelas, Mauro Senise, Raul Mascarenhas nos sopros, Toninho Horta na guitarra além dos vocais da cantora Aleuda. Gravamos 4 músicas, uma das quais, Casinha Pequenina com a duração de 26 minutos. Durante a mixagem, eu e o Lelo pedimos uma cópia em fita de rolo que guardamos em nossos arquivos. Com o passar do tempo, foi necessário digitalizar o material pois a fita iria inevitavelmente se deteriorar. Como o Hermeto se mudou para o Rio de Janeiro em 1976 e nós da “Cozinha Paulista”, Lelo, Zeca e eu não tínhamos planos de nos mudar para lá, nossa permanência em São Paulo inviabilizou a nossa continuidade e assim esse trabalho não foi lançado, ficando guardado por quatro décadas, até que em 2016 o produtor Joe Davis da Far Out Recordings de Londres entrou em contato comigo dizendo ter ouvido trechos da gravação que estão na “Rádio ZEN” em meu web site www.zeeduardonazario.com e se interessou em saber mais a respeito, o que levou a uma negociação com o próprio Hermeto, que aprovou o material remasterizado pelo Lelo, levando à realização do presente álbum, “Hermeto Pascoal e Grupo Vice Versa – Viajando Com O Som”, que teve o lançamento mundial em Londres no dia 3 de novembro de 2017.

Compartilhe!
Share on facebook
Share on whatsapp
Share on twitter
Share on email
Zé Eduardo Nazário

Zé Eduardo Nazário

Baterista e percussionista considerado, segundo publicações especializadas, como um dos principais professores de bateria do Brasil, recebendo da revista Modern Drummer brasileira e de colegas a alcunha de "o professor dos professores".

Converse com a gente!

Envie sua mensagem, crítica, sugestão ou elogio.

© 2009/2019 BIM | Brazilian Instrumental Music – Todos os direitos reservados.

É proibida a cópia ou reprodução total/parcial do conteúdo do site, não importa a mídia, sem autorização prévia da direção.